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No dia 9 de janeiro de 2017, aconteceu a solenidade de formatura da turma de Engenharia Química da Universidade Federal da Bahia (Semestre 2016.1).

Eu e meu colega Silvar Ribeiro tivemos a imensa felicidade de sermos oradores da nossa turma. E, juntos, construimos o texto abaixo, que tenho a alegria de compartilhar com todos vocês. Em nossas palavras, reunimos sinceridade, humor e gratidão. Essa jornada foi muito importante para todos nós. Que fiquem os aprendizados e a gente se mantenha em evolução! Que esse discurso te inspire um pouquinho e te dê a certeza de que se seu momento de formatura ainda não chegou, está perto!

Apresento o discurso em formato de vídeo e texto, veja da forma que preferir! =D

Discurso em Vídeo

Discurso em Texto

Boa noite!

Boa noite e saudações à mesa.

De tudo que queremos dizer nesta noite, vamos começar pelo mais importante: o agradecimento aos nossos pais e familiares. Agradecemos por nos apoiarem desde o aprendizado da primeira palavra, no desafio dos primeiros garranchos, agradecemos também por nos darem forças na indecisão da escolha do curso, na indecisão da permanência no curso, na vitória que celebramos hoje e pela certeza que, independentemente de onde estiverem, estarão olhando por nós e dando o mesmo apoio nos próximos tropeços e acertos que estão por vir. A vocês, Família, agradecemos por tudo aquilo que sentimos e nem sabemos explicar.   

Engenharia Química. Indústria. Docência. Gestão. Pesquisa e Desenvolvimento. Vendas.

Um universo de Possibilidades. Na prática profissional, essas são só algumas das tantas áreas de atuação que temos. Mas, limitar nossa trajetória na Engenharia Química a essas áreas ou ao diploma de Engenheiro Químico é insuficiente. Apesar de recebermos o mesmo diploma, cada um de nós construiu sua própria vida acadêmica e construirá sua própria trajetória profissional. Nesses anos de graduação a gente viveu, talvez, o inenarrável. Mas vamos tentar traduzir em palavras um pouco das emoções e experiências que vivemos nos últimos anos.

Voltando um pouco no tempo, entramos na universidade com o desafio de preencher as vagas de engenheiros que o país estava precisando para continuar se desenvolver. A economia crescia em ritmo forte, tínhamos um presidente com índices de aprovação nunca antes atingidos na história do país, as agências de risco nos deram grau de investimento e vibramos com as notícias que sediaríamos uma copa do mundo e uma olimpíada, coisas antes inimagináveis. Naquele tempo, dispostos a nos tornarmos engenheiros químicos, estudamos muito, pois tínhamos absoluta convicção que era só passar na universidade e apenas iríamos estudar coisas que gostamos. Então enfrentamos um dos vestibulares mais concorridos do país para entrar em um dos cursos dos mais desafiadores. Mas difícil mesmo era responder a frequente pergunta dos amigos e familiares: “O que faz um engenheiro químico?”. Nesses anos que passaram do vestibular até a formatura, seja 4.5 (né Guerrinha? Rs), 5, 6, 7, 8 ou mais anos, muita coisa mudou.

O mundo mudou. Entramos na universidade enfrentando filas para tirar xerox e saímos fazendo download do e-book no tablet ou então tirando foto dos cadernos com os smartphones para compartilhar na nuvem e estudar em grupo via Skype. Temos até selfie com #tcc no Instagram. (Tirar a selfie. “Essa aqui vai bombar!”). Entramos escutando que era importante falar inglês e muitos de nós tivemos a oportunidade de fazer intercâmbio com bolsa integral e estudar nas melhores universidades do mundo e também apresentamos trabalhos em inglês em disciplinas aqui na UFBA.  

O país mudou. Vivemos uma crise moral e ética sem precedentes. Os valores envolvidos nos escândalos de corrupção são assustadores e em escala global. O famoso jeitinho brasileiro finalmente nos envergonha. Nosso vigor econômico não parece mais tão empolgante.

Nós mudamos. Adquirimos conhecimento, testamos nossos limites, vencemos nossos fantasmas e fomos resilientes. Fizemos amigos, com quem compartilhamos os vários bons momentos e nos ajudaram a passar pelos ruins também. Alguns de nós descobriram quem é o amor de sua vida e alguns de nós descobriram quem não é. Cada vez que renunciamos finais de semana, feriados ou viagens para estudar, cada sol brilhante e mar azul que assistimos das janelas das salas de aula da politécnica, cada verão que passamos dentro da universidade, cada sábado que passamos fazendo provas, foram escolhas que fizemos e essas escolhas nos trouxeram até aqui.

E, sobre esse ponto, queremos expressar nossa gratidão à UFBA por todos os desafios promovidos. Em alguns momentos, estes desafios trouxeram dores, mas tudo isso foi necessário para nossa evolução em diferentes aspectos... Por muito tempo, particularmente falando (e acredito que, nesse ponto, também sou porta voz de muitos), eu tive um relacionamento conflituoso com a instituição de ensino que decidi estudar Engenharia Química. Admiro e parabenizo meus colegas aqui que mantiveram a calma ao fazerem avaliações sem nem mesmo terem acesso à correção da prova da unidade anterior. Admiro conseguirem com muita tranquilidade projetar colunas de destilação com métodos aplicados em folhas de papel milimetrado. Admiro terem programado algoritmos majestosos nos papéis das provas escritas de Métodos Computacionais. Admiro de verdade, porque para mim (e para muitos), essa missão não foi fácil. Aplicar esses conhecimentos em softwares ou explicar o assunto oralmente a um colega era tranquilo, mas, no papel, não era. E isso acontecia não pela ausência de aprendizado, mas sim pela abordagem de avaliação que não condiz tanto com as habilidades que temos e com a forma que enxergamos o mundo (alguns de nós somos visuais, outros cinestésicos ou auditivos).

Acredito que, ao falarmos deste tópico, chegamos em um dos maiores desafios do Ensino Superior Brasileiro. Reconhecemos que poderíamos ter aulas mais contextualizadas com o uso da tecnologia, mas como fazer isso se não temos acesso a todos os recursos? Os bons professores realmente se dedicam em transmitir o conhecimento da Engenharia mesmo sem ter os investimentos necessários. E são esses professores que estão representados aqui hoje.

Nesse momento gostaríamos de agradecer aos nossos mestres. Que mesmo com toda dificuldade, mesmo não sendo valorizados como merecem, mesmo não tendo todos os recursos necessários, são verdadeiros heróis em sala de aula. Agradecer por não nos deixar cair nas armadilhas de respostas prontas e nos desafiar a pensar além. Afinal, ajustamos os dados a uma curva ou ajustamos uma curva aos dados?

Cristiano é um professor que tem o dom de transformar o complicado em simples. Quando ele explica tudo parece fácil. Eu acho inclusive que muitos casamentos seriam salvos se as esposas brigassem com ele e pedissem para explicar para os maridos depois.

Marcos Fábio é um professor reconhecido por todos. Uma vez conversando com colegas de outro curso me disseram “Rapaz, estou pegando uma matéria com um professor de engenharia química muito bom, Marcos”. Eu respondi que sim, realmente. Um outro colega de engenharia química me perguntou “Oxe, quem é Marcos?”. “É Binho, pô”. “ Ahhh sim, é bom mesmo”.

Professor Luiz Mário com sua voz forte e seu gosto para times de futebol (Bora Vitória!), nos transmite conteúdos complicados e importantes com clareza. De todos os professores que marcaram a minha trajetória, eu faço menção honrosa ao professor Luiz Mário. Ele me deu uma lição importante de empatia e de como nunca devemos desistir daquilo que queremos. Muitas das lições de vida que tive dentro da engenharia vieram da experiência que tive ao ser sua aluna.

Professora Regina além de ensinar engenharia química, se aproxima da turma e nos ensina sobre a vida, carreira, muitas coisas importantes que superam o conteúdo das ementas de engenharia.

Professor Silvio com toda sua experiência, e acreditem, não é pouca, nos ensina com muitos exemplos e casos vividos na Petrobrás. Diante de assuntos nem sempre simples, ele sempre tinha uma piada para descontrair e trazer leveza à sala de aula.

A gente reconhece o que se tem a melhorar em nossa formação e queremos ajudar também. Nossa geração questiona muito, mas precisamos reconhecer que sempre queremos respostas imediatas, algumas vezes até nos ausentamos da responsabilidade que temos em também mudar essa realidade.  Não é tarde para nós, mesmo que hoje a gente diga até logo à UFBA, afinal de contas, retribuir o que esse espaço nos promoveu é também um dever que temos com nosso País e com as futuras gerações (na verdade, esse é o real significado da gratidão).

Ao cruzarmos essa porta, não temos muita certeza do que nos espera, mas vamos manter a calma... O conselho é difícil de pôr em prática, mas é exercício de fé de que tudo vai se encaixar. Calma. A incerteza vem pela impermanência da vida. Um dia, algo começa, no outro dia, esse algo acaba. A vida é isso. Impermanência. E essa impermanência exige paciência, só assim para não existir sofrimento. A incerteza faz parte da vida, como um artista que não pode perder o frio na barriga antes de entrar no palco, não podemos perder a inquietação que nos levará a alcançar uma vida cada vez mais realizada. Se há inquietação, é porque saímos de nossa zona de conforto, um bom sinal de que a vida está evoluindo.

Agora temos o desafio de traçar os caminhos que desejamos para nossas vidas, para nosso país e para a sociedade como um todo. Tivemos nossos estudos pagos pelos impostos dos cidadãos e vamos devolver esse investimento com muito trabalho duro pautado em responsabilidade social, cuidado com o meio ambiente e ética. Estamos prontos, esse marco significa que muito mais trabalho duro está por vir e muito mais conquistas iremos alcançar.

Antes de finalizarmos, Queríamos apenas lembrá-los de que a engenharia, em seu tom mais íntimo, exige muito mais do que o domínio dos números. Ser engenheiro é lidar com emoções, problemas e pessoas. E isso tudo exige a capacidade de enxergar almas. De ver dores e virtudes, reconhecendo no outro o melhor que ele tem e o ajudando a se superar dia a após dia. Pouco se fala do cuidado humano em nosso meio, mas não podemos deixar de recordá-los sobre a importância disso. Ética, cuidado humano, enxergar e valorizar o outro. Isso não foi tão enfatizado em nossas aulas, nem requerido em nossas avaliações, mas a vida vem nos ensinando isso e jamais devemos deixar esses aprendizados de lado.

O bem mais valioso que levamos não é material, são os laços construídos e o conhecimento adquirido, que vai além da técnica.

O que significa exatamente esse canudo que vamos receber vestidos com essa roupa preta com uma faixa azul amarrada na cintura? Essa pergunta é mais difícil do que o projeto de uma torre de destilação multicomponente com dupla alimentação (rs). E não devemos ter pressa em respondê-la, isso exige experiências que ainda não temos. Então, vamos simplesmente viver. Lá na frente, tudo se conecta.

Gratidão! Gratidão!

Ana Luisa Almeida & Silvar Ribeiro

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Ana Luisa Almeida
Aprendiz da vida e da engenharia. Idealizadora do Projeto "O que aprendi na Engenharia". Jovem Ponte, Engenheira Química formada pela UFBA, atuando como Engenheira Trainee na Kordsa Brasil. Nascida para espalhar sorrisos e gratidão ao redor do mundo, com o Coração sempre no ritmo #GoGoGo.

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